Orixás: quem são, origem, cores, dias, saudações e festas de cada um
Orixás são divindades de origem iorubá, da região onde hoje ficam Nigéria e Benin, que personificam forças da natureza e aspectos da vida humana. Chegaram ao Brasil com os africanos escravizados e são cultuados no Candomblé e na Umbanda. Cada orixá tem domínio, cores, dia da semana, saudação, comidas e festas próprias.
Os orixás estão presentes na cultura brasileira muito além dos terreiros: na festa de Iemanjá no Rio Vermelho, na roupa branca do réveillon, nas músicas de Dorival Caymmi e na culinária baiana. Mesmo assim, muita gente não sabe direito quem são e de onde vieram.
Neste guia você vai entender a origem dos orixás, a diferença entre o culto no Candomblé e na Umbanda e conhecer os 15 mais cultuados no Brasil, com uma tabela-resumo no final. Um aviso: cores, dias e fundamentos variam de uma nação e de um terreiro para outro. A palavra final é sempre da sua casa de axé e do seu pai ou mãe de santo.
O que são os orixás?
Na tradição iorubá, existe um ser supremo, Olodumare (também chamado Olorum), criador de tudo o que existe. Os orixás são as divindades que fazem a ponte entre esse princípio criador e o mundo humano. Cada um rege uma força da natureza, como o mar, os rios, o trovão, as matas ou o vento, e também um conjunto de temas humanos, como a justiça, a maternidade, a guerra, a cura ou a comunicação.
Para os praticantes, os orixás não são personagens de lenda: são forças vivas, cultuadas com rezas, cantigas, danças, oferendas e respeito aos fundamentos. A energia que circula entre o orixá, a comunidade e a natureza se chama axé. Toda pessoa, segundo a tradição, tem um orixá que rege a sua cabeça (o ori), conhecido como orixá de cabeça ou orixá de frente, revelado pelo jogo de búzios ou pela orientação do terreiro.
Os ensinamentos são transmitidos pela oralidade, por meio dos itãs, as histórias sagradas de cada divindade. Por isso versões diferentes de um mesmo itã convivem, e cada casa preserva sua tradição.
Qual é a origem dos orixás?
O culto aos orixás nasceu entre os povos iorubás, que vivem principalmente no sudoeste da Nigéria, no Benin e no Togo. Na África, muitos orixás eram cultuados em cidades ou regiões específicas: Xangô em Oyó, Oxum em Oxogbô, Ogum em Irê, Oxóssi em Ketu. Cada família ou cidade tinha seu orixá protetor.
Com o tráfico de africanos escravizados para as Américas, entre os séculos XVI e XIX, pessoas de diferentes povos foram trazidas à força e reorganizaram aqui, em condições de enorme violência, a sua fé. No Brasil, o culto que antes era separado por cidades passou a reunir vários orixás num mesmo espaço, o terreiro. Assim surgiu o Candomblé, especialmente na Bahia, com nações como Ketu (de origem iorubá), Jeje (que cultua os voduns, de origem fon) e Angola (que cultua os inquices, de origem banto).
A diáspora também levou os orixás a Cuba, onde se formou a Regla de Ocha, ou Santería. Já a Umbanda, religião brasileira com marco de fundação em 1908, em Niterói, uniu os orixás a elementos do catolicismo, do espiritismo e das tradições indígenas.
Diferença entre os orixás no Candomblé e na Umbanda
No Candomblé, o orixá é cultuado diretamente, com ritos de iniciação, sacrifícios e oferendas de comidas específicas, e se manifesta nos iniciados durante as festas. A língua ritual é o iorubá (ou o fon e as línguas bantas nas outras nações), e os fundamentos são passados de forma iniciática.
Na Umbanda, os orixás costumam ser entendidos como forças maiores que regem linhas de trabalho espiritual. Quem se manifesta nas giras, na maioria das casas, são os guias e entidades, como caboclos, pretos-velhos, crianças, baianos, exus e pombagiras, que trabalham sob a vibração de um orixá. A Umbanda também cultua um número menor de orixás, geralmente organizados em sete linhas, cuja composição muda de casa para casa.
Por isso Logunedé, Obá, Ewá, Oxumaré e Ossain são mais presentes no Candomblé. Nenhuma religião é mais certa que a outra: são caminhos com fundamentos próprios.
Os 15 orixás mais cultuados no Brasil
A seguir, cada orixá com o seu domínio principal, cores, dia da semana, saudação e sincretismo católico. O sincretismo nasceu como estratégia de sobrevivência: proibidos de cultuar seus deuses, os africanos associaram cada orixá a um santo católico. Ele é muito comum no Brasil, mas varia por região e muitas casas de Candomblé hoje preferem não usá-lo.
Exu
Exu é o orixá da comunicação, do movimento, dos caminhos e das encruzilhadas. É o mensageiro entre os humanos e os orixás, por isso é sempre o primeiro a ser saudado e a receber oferendas, o chamado padê. Cores: vermelho e preto. Dia: segunda-feira. Saudação: Laroyê, Exu! Sincretismo: em algumas regiões, Santo Antônio. A associação de Exu com o diabo é uma distorção de origem colonial e não faz parte da tradição.
Ogum
Ogum é o orixá do ferro, da guerra, da tecnologia, do trabalho e da abertura de caminhos. Ensinou aos humanos o uso das ferramentas. Cores: azul-escuro no Candomblé e vermelho em muitas casas de Umbanda. Dia: terça-feira. Saudação: Ogunhê! Sincretismo: São Jorge no Rio de Janeiro e no Sudeste, Santo Antônio na Bahia. Festa popular: 23 de abril, dia de São Jorge.
Oxóssi
Oxóssi é o caçador de uma flecha só, orixá das matas, da fartura, do sustento e do conhecimento. É o patrono da nação Ketu. Cores: azul-turquesa no Candomblé e verde na Umbanda. Dia: quinta-feira. Saudação: Okê Arô! Sincretismo: São Sebastião no Rio de Janeiro (20 de janeiro) e São Jorge na Bahia.
Xangô
Xangô é o orixá da justiça, do fogo, do trovão e das pedreiras. Foi rei de Oyó e é símbolo de liderança e equilíbrio entre direito e dever. Seu símbolo é o oxê, o machado de duas lâminas. Cores: vermelho e branco no Candomblé, marrom em muitas casas de Umbanda. Dia: quarta-feira. Saudação: Kaô Kabecilê! Sincretismo: São Jerônimo (30 de setembro), São João e São Pedro, conforme a região.
Iansã (Oyá)
Iansã, ou Oyá, é a senhora dos ventos, das tempestades e dos raios, guerreira que também comanda os eguns, os espíritos dos mortos. Representa coragem, transformação e movimento. Cores: vermelho, coral e marrom. Dia: quarta-feira. Saudação: Eparrei, Oyá! Sincretismo: Santa Bárbara, festejada em 4 de dezembro.
Oxum
Oxum é a senhora das águas doces, dos rios e cachoeiras, do amor, da fertilidade, da beleza e da prosperidade. Seu símbolo é o espelho, o abebé. Cores: amarelo e dourado. Dia: sábado. Saudação: Ora Yê Yê Ô! Sincretismo: Nossa Senhora da Conceição na Bahia, Nossa Senhora Aparecida e Nossa Senhora das Candeias em outras regiões.
Iemanjá
Iemanjá é a mãe de muitos orixás, rainha do mar e símbolo da maternidade, do acolhimento e da família. É uma das divindades mais populares do Brasil. Cores: azul-claro, branco e prata. Dia: sábado. Saudação: Odoyá! Sincretismo: Nossa Senhora dos Navegantes e Nossa Senhora da Conceição. Festas: 2 de fevereiro em Salvador e em várias cidades do litoral, 8 de dezembro em muitos lugares e as oferendas da virada do ano.
Nanã
Nanã é a orixá mais antiga, senhora da lama primordial de onde, segundo os itãs, foi moldado o ser humano. Rege as águas paradas, a ancestralidade, a sabedoria e o ciclo de nascimento e morte. Cores: lilás, roxo e azul com branco. Dia: sábado (em algumas casas, terça-feira). Saudação: Saluba, Nanã! Sincretismo: Sant'Ana, avó de Jesus, festejada em 26 de julho.
Omolu (Obaluaê)
Omolu, também chamado Obaluaê, é o orixá da terra, da saúde e da doença, da cura e da transformação. Veste-se de palha da costa, que esconde seu rosto. Cores: preto, branco e vermelho. Dia: segunda-feira. Saudação: Atotô! Sincretismo: São Lázaro e São Roque. Em agosto, muitas casas realizam o Olubajé, banquete oferecido a ele e compartilhado pela comunidade.
Oxumaré
Oxumaré é o arco-íris e a serpente, orixá dos ciclos, da continuidade, da renovação e da riqueza. Liga o céu e a terra e representa o movimento permanente da vida. Cores: verde e amarelo, ou as cores do arco-íris. Dia: terça-feira. Saudação: Arroboboi! Sincretismo: São Bartolomeu, festejado em 24 de agosto.
Ossain
Ossain é o senhor das folhas, guardião do segredo das plantas medicinais e litúrgicas. Sem as folhas não há axé, por isso se diz Kò sí ewé, kò sí òrìṣà: sem folha, não há orixá. Cores: verde e branco. Dia: quinta-feira na maioria das casas. Saudação: Ewé ó! Sincretismo: São Benedito em algumas regiões.
Logunedé
Logunedé é filho de Oxóssi e Oxum e reúne as qualidades dos dois: a caça e as águas doces, a astúcia e a beleza. É um orixá jovem, associado à riqueza e ao equilíbrio. Cores: azul-turquesa e amarelo. Dia: quinta-feira. Saudação: Lóci Lóci, Logun! Sincretismo: Santo Expedito, em algumas regiões.
Obá
Obá é guerreira, senhora do rio que leva seu nome na Nigéria e uma das esposas de Xangô. Representa a força feminina, a lealdade e a dedicação. Cores: vermelho e marrom ou vermelho e amarelo, conforme a casa. Dia: quarta-feira. Saudação: Obá Xirê! Sincretismo: Santa Joana d'Arc.
Ewá
Ewá é a senhora das névoas, dos horizontes e da beleza que não se deixa capturar. Associada à vidência, à intuição e às transformações sutis, é uma orixá cercada de mistério e de fundamentos guardados. Cores: vermelho e amarelo ou tons de coral. Dia: sábado. Saudação: Riró! Sincretismo: Santa Luzia, festejada em 13 de dezembro.
Oxalá
Oxalá é o pai, orixá da criação, da paz, da fé e da pureza. Tem duas qualidades principais: Oxalufã, o velho, que caminha apoiado no cajado, e Oxaguiã, o jovem guerreiro. Cor: branco. Dia: sexta-feira, quando muitos praticantes se vestem de branco. Saudação: Êpa Babá! Sincretismo: Senhor do Bonfim. Festa: a Lavagem do Bonfim, em Salvador, na segunda quinta-feira de janeiro.
Tabela-resumo dos orixás
Cores, dias e sincretismos mudam conforme a nação e o terreiro.
| Orixá | Domínio | Cores | Dia | Saudação | Sincretismo comum |
|---|---|---|---|---|---|
| Exu | Comunicação, caminhos | Vermelho e preto | Segunda | Laroyê! | Santo Antônio (algumas regiões) |
| Ogum | Ferro, trabalho, guerra | Azul-escuro ou vermelho | Terça | Ogunhê! | São Jorge, Santo Antônio |
| Oxóssi | Matas, fartura | Azul-turquesa ou verde | Quinta | Okê Arô! | São Sebastião, São Jorge |
| Xangô | Justiça, fogo, trovão | Vermelho e branco, marrom | Quarta | Kaô Kabecilê! | São Jerônimo |
| Iansã | Ventos, raios, eguns | Vermelho, coral | Quarta | Eparrei! | Santa Bárbara |
| Oxum | Águas doces, amor | Amarelo, dourado | Sábado | Ora Yê Yê Ô! | N. Sra. da Conceição |
| Iemanjá | Mar, maternidade | Azul-claro, branco | Sábado | Odoyá! | N. Sra. dos Navegantes |
| Nanã | Lama, ancestralidade | Lilás, roxo | Sábado | Saluba! | Sant'Ana |
| Omolu | Saúde, terra, cura | Preto, branco, vermelho | Segunda | Atotô! | São Lázaro, São Roque |
| Oxumaré | Arco-íris, ciclos | Verde e amarelo | Terça | Arroboboi! | São Bartolomeu |
| Ossain | Folhas, ervas | Verde e branco | Quinta | Ewé ó! | São Benedito |
| Logunedé | Caça e rio, juventude | Turquesa e amarelo | Quinta | Lóci Lóci! | Santo Expedito |
| Obá | Força feminina, lealdade | Vermelho e marrom | Quarta | Obá Xirê! | Santa Joana d'Arc |
| Ewá | Névoas, vidência | Vermelho e amarelo | Sábado | Riró! | Santa Luzia |
| Oxalá | Criação, paz | Branco | Sexta | Êpa Babá! | Senhor do Bonfim |
Principais festas dos orixás no Brasil
Algumas celebrações entraram no calendário cultural do país. São abertas ao público, mas continuam sendo momentos religiosos.
- Lavagem do Bonfim (segunda quinta-feira de janeiro, Salvador): baianas lavam as escadarias da Igreja do Bonfim com água de cheiro, em homenagem a Oxalá.
- Festa de Iemanjá (2 de fevereiro): a mais famosa acontece no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, com presentes levados ao mar em barcos.
- Dia de São Jorge (23 de abril): no Rio de Janeiro, a data reúne católicos e devotos de Ogum.
- Olubajé (agosto, em data definida por cada casa): banquete em honra a Omolu, servido em folhas de mamona.
- Festa de Santa Bárbara (4 de dezembro): celebrada em Salvador com caruru e homenagens a Iansã.
- Dia de Nossa Senhora da Conceição (8 de dezembro): muitas cidades fazem homenagens a Oxum e a Iemanjá.
- Réveillon: as oferendas de flores brancas e os sete pulos nas ondas são homenagens populares a Iemanjá.
Como respeitar os orixás mesmo sem ser praticante
Você não precisa ser do Candomblé ou da Umbanda para admirar os orixás. Não use o nome dos orixás em tom de piada ou como fantasia. Pergunte antes de fotografar uma cerimônia. Se for deixar flores no mar ou no rio, prefira materiais biodegradáveis e não deixe plástico, vidro ou isopor na natureza, algo que as próprias lideranças religiosas pedem. E se quiser se aproximar da religião, procure um terreiro sério, converse com o pai ou a mãe de santo e respeite o tempo de aprendizado.
Por fim, lembre que intolerância religiosa é crime no Brasil. O dia 21 de janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, criado em memória de Mãe Gilda, ialorixá baiana que sofreu ataques por sua fé.
Perguntas frequentes
Quantos orixás existem?
Na África iorubá se fala em centenas de orixás, muitos deles cultuados apenas em uma cidade ou família. No Brasil, o Candomblé Ketu cultua cerca de 16 orixás principais, e a Umbanda costuma trabalhar com um número menor, organizado em sete linhas. A lista exata varia conforme a nação e o terreiro.
Qual é o orixá mais poderoso?
Na tradição, não existe um orixá mais poderoso que os outros. Cada um rege forças e temas diferentes, e todos são necessários para o equilíbrio do mundo. Oxalá é respeitado como pai e criador, e Exu é sempre saudado primeiro por ser o mensageiro, mas isso diz respeito à função de cada um, não a uma hierarquia de poder.
Orixá e santo católico são a mesma coisa?
Não. O sincretismo foi uma associação criada durante a escravidão, quando os africanos eram proibidos de cultuar seus deuses e passaram a homenageá-los diante de imagens católicas. Ele se tornou parte da cultura brasileira, mas orixás e santos têm origens, histórias e fundamentos diferentes. Muitas casas de Candomblé hoje preferem não usar o sincretismo.
Como saber qual é o meu orixá?
Pela tradição, o orixá de cabeça é revelado pelo jogo de búzios, feito por um pai ou mãe de santo, ou pela orientação do terreiro ao longo do tempo. Métodos por data de nascimento circulam na internet, mas não fazem parte da tradição e devem ser vistos apenas como curiosidade.
Qual a diferença entre orixá e entidade?
Orixás são divindades ligadas às forças da natureza, de origem africana. Entidades ou guias, como caboclos, pretos-velhos, exus e pombagiras na Umbanda, são entendidos como espíritos que já viveram ou que trabalham em falanges sob a vibração de um orixá. No Candomblé, quem se manifesta é o próprio orixá.
Posso cultuar orixás sem frequentar um terreiro?
Você pode respeitar, estudar e admirar os orixás por conta própria. Mas o culto envolve fundamentos, rezas, oferendas e cuidados que são transmitidos dentro de uma comunidade religiosa. Fazer rituais sem orientação pode gerar erros e desrespeito. Para qualquer prática, o mais seguro é procurar um terreiro de confiança.
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